As múltiplas experiências humanas pela
reencarnação e os repetidos contatos com ambos os sexos
proporcionam ao espírito as tendências sexuais na feminilidade ou
masculinidade e este reencarna com ambas polaridades e se junge,
muitas vezes contrariado, aos impositivos da anatomia genital e da
educação sexual que acolhe em seu ambiente cultural.
Consoante essas experiências tenderá para qualquer das duas opções
e o fará nem sempre de acordo com sua aspiração interior, que
poderá ser inverso ao que determina o meio socio-cultural.Emmanuel
ensina na obra “Vida e Sexo” que o “Espírito
passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de
feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o
fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase
todas as criaturas.” ( ) Além disso há vários fatores
educacionais que poderiam contribuir para despertar no indivíduo as
tendências sepultadas nas profundezas de seu inconsciente
espiritual.
E, ainda que desempenhe papéis de acordo com a sua anatomia genital
e que seu psiquismo se constitua de acordo com sua opção sexual,
poderá ocorrer que se desperte com desejos de ter experiências
afetivas com pessoas do mesmo sexo. Tal ocorrência poderá lhe
tumultuar a consciência caracterizando, por aquele motivo, um
transtorno psíquico-emocional.
A convivência do espírito com o sexo oposto ao que adotou em cada
encarnação, bem como aquelas na qual exerceu sua opção sexual, irão
plasmar em seu psiquismo as tendências típicas de cada polaridade.
Explica Emmanuel, a homossexualidade, também hoje chamada
transexualidade, em alguns círculos de ciência, definindo-se, no
conjunto de suas características, por tendência da criatura para a
comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra
explicação fundamental nos estudos psicológicos que tratam do
assunto em bases materialistas, mas é perfeitamente compreensível,
à luz da reencarnação.”( )
Na questão 202 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga aos
Espíritos: "Quando errante, que prefere o Espírito: encarnar no
corpo de um homem, ou no de uma mulher?" "Isso pouco lhe
importa” responderam os Benfeitores, “o que o guia na
escolha são as provas por que haja de passar"( ) esclareceram os
Espíritos. A genética tem tentado encontrar genes que explicariam a
homossexualidade como sendo desvio de comportamento sexual. A
psiquiatria tenta encontrar enzimas cerebrais que poderiam
influenciar no comportamento sexual. Mas a sede real do sexo não se
acha no veículo físico, porém na estrutura complexa do espírito. É
por esse prisma que devemos encarar as questões relacionadas ao
sexo. Dia virá que “a coletividade humana aprenderá,
gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de
anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de
sinais morfológicos”.
Não podemos confundir homossexualismo com desvio de caráter, até
porque os deslizes sexuais de qualquer tendência têm procedências
diversas. Suas raízes genésicas podem vir de profundidades íntimas
insondáveis. “A própria filogênese( ) do sexo, que começa
aparentemente no reino mineral, passando pelo vegetal e ao animal,
para depois chegar ao homem, apresenta enorme variação de formas,
inclusive a autogênese[geração espontânea] dos vírus e das células
e a bissexualidade dos hermafroditas”( ), para alguns
pesquisadores justifica o aparecimento de desvios sexuais
congênitos.
Com a liberação sexual e a ascensão do feminino na sociedade
contemporânea, a tolerância ao homossexualismo aumentou, permitindo
que uma grande quantidade de pessoas que viviam no anonimato se
expressasse naturalmente. Chico Xavier explica de forma clara o
seguinte, “não vejo pessoalmente qualquer motivo para
criticas destrutivas e sarcasmos incompreensíveis para com nossos
irmãos e irmãs portadores de tendências homossexuais, a nosso ver,
claramente iguais as tendências heterossexuais que assinalam a
maioria das criaturas humanas. Em minhas noções de dignidade do
espírito, não consigo entender porque razão esse ou aquele
preconceito social impedirá certo número de pessoas de trabalhar e
de serem úteis a vida comunitária, unicamente pelo fato de haverem
trazido do berço características psicológicas e fisiológicas
diferentes da maioria. (...)Nunca vi mães e pais, conscientes da
elevada missão que a Divina Providencia lhes delega, desprezarem um
filho porque haja nascido cego ou mutilado. Seria humana e justa
nossa conduta em padrões de menosprezo e desconsideração, perante
nossos irmãos que nascem com dificuldades psicológicas?”(
)
A Doutrina Espírita é libertadora por excelência. Ela não tem o
caráter tacanho de impor seus postulados às criaturas, tornando-as
infelizes e deprimidas. A energia sexual pede equilíbrio no uso e
não abuso ou repressão. O Espiritismo não condena a
homossexualidade, contrariamente, recomenda-nos o respeito e
fraterna compreensão para com os que têm preferências homoafetivas.
Muitas vezes pode até ser alguém tangido pelo apelo permissivo que
explode das águas tóxicas do exacerbado erotismo, somados aos
diversos incentivadores pseudocientíficos da depravação, que podem
estar desestruturando seu sincero projeto de edificação moral,
através de uma conduta sexual equilibrada.( ) Por isso mesmo, não
pode ser discriminado, nem rejeitado, pois, como admoesta Jesus,
"aquele dentre vós que não tiver pecados, que atire a primeira
pedra"( )...
Como já vimos com Emmanuel no início desta exposição, não há
masculinidade plena, nem plena feminilidade na Terra. Tanto a
mulher tem algo de viril, quanto o homem de feminil. Antigamente a
educação muito rígida e repressiva contribuía para enquadrar o
indivíduo ambisséxuo, em seu sexo natural.
Assumir a homossexualidade não significa mergulhar em um universo
de atitudes extremadas e desafiadoras perante seu grupo de
relacionamento familiar ou profissional, “mas fazer um
profundo exercício de autoaceitação, asserenar-se por dentro a fim
de poder reconhecer perante si mesmo e todo seu círculo de amigos e
parentes que vive uma situação conflitante. O verdadeiro desafio é
a construção interna para superar os desejos. E não estamos aqui
referindo-nos exclusivamente a desejo sexual e sim a toda espécie
de desejos que comandam a vida das criaturas.” ( )
Emmanuel enfatiza que “O mundo vê, na atualidade, em todos os
países, extensas comunidades de irmãos em experiência dessa espécie
[homossexual], somando milhões de homens e mulheres, solicitando
atenção e respeito, em pé de igualdade devidos às criaturas
heterossexuais.”( ) O homossexualismo não deve, pois, ser
classificado como uma psicopatia ou comportamento merecedor de
discriminação ou medidas repressivas. O homossexual, especialmente
o "transexual", merece toda a nossa compreensão e ajuda, para que
ele possa vencer sua luta de adaptação ao novo sexo adquirido com o
renascimento.
Outra questão extremamente controvertida, para muitos cristãos, é a
possibilidade da união estável (casamento) entre duas pessoas do
mesmo sexo. Ante a miopia preconceituosa do falso purismo religioso
da esmagadora maioria de cristãos supostamente “puros”,
isso é uma blasfêmia. Isto torna o tema bastante complexo e,
portanto, aberto para discussões. Porém, após refletir bastante
sobre o assunto e, sobretudo, tendo como alicerce as opiniões de
Chico Xavier, entendemos que a união estável (casamento) entre
homossexuais é perfeitamente normal, sim.
Só conseguiremos entender melhor a questão homossexual depois que
estivermos livres dos (pré)conceitos que nos acompanham há muitos
milênios. Arriscaríamos a afirmar, que a legalização do casamento
entre duas pessoas do mesmo sexo, é um avanço da sociedade, que
estará apenas regulamentando o que de fato já existe.
Seria lícito a duas pessoas do mesmo sexo viverem sob o mesmo teto,
como marido e mulher?A propósito, vasculhando fontes sobre esta
mesma indagação encontramos em Folha Espírita a resposta de
Emmanuel “A esta indagação o Codificador da Doutrina Espírita
formulou a Questão 695, em O Livro dos Espíritos, com as seguintes
palavras: ‘O casamento, quer dizer, a união permanente de
dois seres, é contrário a lei natural?’ Os orientadores dos
fundamentos da Doutrina Espírita responderam com a seguinte
afirmação: ‘É um progresso na marcha da humanidade.’ Os
amigos encarnados no plano físico com a tarefa de sustentar e zelar
pelo Cristianismo Redivivo, na Doutrina Espírita, estão aptos ao
estudo e conclusão do texto em exame.”( ) (grifamos)
Tanto o homossexual como o heterossexual devem buscar a sua reforma
interior, não cedendo aos arrastamentos provocados pelos impulsos
instintivos e sensuais. O que é ilícito ao hetero, também o é ao
homossexual, ambos precisam “distinguir no sexo a sede de
energias superiores que o Criador concede à criatura para
equilibrar-lhe as atividades, sentindo-se no dever de resguardá-las
contra os desvios suscetíveis de corrompê-las. O sexo é uma fonte
de bênçãos renovadoras do corpo e da alma”( )
Mister, portanto, reconhecer que ao serem identificadas os pendores
homossexuais das pessoas nessa dimensão de prova ou de expiação, é
imperioso se lhes oferte o amparo educativo pertinente, nas mesmas
condições que se administra instrução à maioria heterossexual da
sociedade.
Acreditamos, por fim, que estas idéias poderão levar, a quantos as
lerem, a meditar, em definitivo, sobre o assunto , lembrando que o
homossexualismo transcende em si mesmo a simples questão da permuta
sexual.
( )Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
( )______, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
( )Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. Feb, 2000, perg. 202
( )_______, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
( ) Filogenia (história evolucionária das espécies) opõe-se à ontogenia (desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação até a maturidade para a reprodução.)
( )Disponível em acessado em 21/04/06
( ) Publicada no Jornal Folha Espírita do mês de Março de 1984
( ) A recomendação do Espiritismo para o respeito e a compreensão para com os irmãos que transitam em condições sexuais inversivas (homossexualismo) ocorre em função do sentimento de fraternidade ou caridade que deve presidir o relacionamento humano, mas igualmente pelo fato de que nenhum de nós tem autoridade suficiente para condenar quem quer que seja, pois todos temos dificuldades morais e/ou materiais graves que precisam de educação.
( )João, cap. VIII, vv. 3 a 11
( )Disponível em acessado em 21/04/2006
( ) _______, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
( ) Publicada no Jornal Folha Espírita do mês de Julho de 1984.
( ) Xavier, Francisco Cândido. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.






















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